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quarta-feira, julho 18, 2012

Bacalhau à Búlgaro

1992/1993...
O Desportivo de Chaves está na I Divisão, treinado por Henrique Calisto
Uma equipa aguerrida com jogadores como Makukula, Karoglan, Omer no ataque.
Depois na defesa Paulo Lima Pereira, Paulo Henrique, o conhecido Filgueira! Ainda Lino, eterno defesa esquerdo flaviense.
E no meio campo, quem pontifica no Meio campo???
Bakalov! sim, esse mesmo, BAKALOV!! Não, a doença mental que tenho nao me troca assim tanto as letras na mesma frase... BAKALOV!
Naquele ano havia um outro jogador, sósia de nome... chamado BALAKOV! Sim, eu disse Balakov.
Krassimir Balakov, um dos nº10 com mais classe que passaram o seu perfume pelo odor dos relvados portugueses (mesmo aqueles relvado que cheiaravam a bosta...)
E nada mais arrojado para moralizar do que ter um BALAKOV, mas BAKALOV.
É uma espécie de mistura entre Balakov e um Bacalhau Búlgaro...
Este bacalhau é também búlgaro, pois claro. e Jogou ainda no Botev Plovdiv, esse clássico da Riviera Búlgara.

Obrigado Bakalhov pelos teus 12 jogos na Liga Portuguesa. Obrigado Bakalhov pelo teu golo ao Vitóri de Guimarães.
Deixaste marcas Bakalhov.. tal como o bacalhau no natal as deixa.. apenas uma noite!

Curiosamente há um site que diz que Na grande equipa do CSKA Sofia de 1989/90 que foi às meias finais da Taça dos campeões, o pulmão do meio campo é...BAKALOV. Numa equipa em que pontificavam no ataque Hristo Stoichkov e Kostadinov. Portanto, BAKALHOV alimentava, tal como no Natal, e bem , a sua família.

Bakalov na sua pose como treinador atual do Botev Plovdiv:

Marin bakalov.jpg

segunda-feira, junho 28, 2010

Quintana e mais dez

"Estávamos à espera que fosse o Quintana e mais dez, mas ele não correspondeu às expectativas."

Este poderia ser o epitáfio de uma carreira, cravado por um impiedoso cinzel na face de um triste e cinzento mausoléu futebolístico. Na verdade, até foi - porém metafóricamente.
As palavras proferidas pelo então líder do Moreirense, Vítor Magalhães, embora comuns no contexto-cautchú, revelaram-se como uma perfeita resenha da carreira do paraguaio em Portugal. Aliás, se a vida do Victor desse um livro, seria daqueles resumos amarelos que o pessoal usava no secundário para não ter que passar pela tormenta de ler os Maias ou os Lusíadas por inteiro. Aqueles que tinham apenas meia dúzia de páginas com um par de tópicos.
Estimo desassombradamente que o livrito do Quintana teria uma solitária página apenas, com a deprimente frase do Magalhães pintada a tons dourados.
Abrir aspas, introduzir epitáfio, fechar aspas.
E assim se enterra uma carreira outrora promissora.

Porém, a demanda do Victor por solo Europeu não começou pelo dantesco vilarejo de Moreira de Cónegos, onde quer que isso seja.
Ao invés, o combativo jugador aterrou no Sá Carneiro para representar um clube na ressaca de um histórico pentacampeonato e na antecâmara de uma não-menos-histórica conquista Europeia. Infelizmente para o paraguaio - e felizmente para o referido clube - a sua época de estreia acertou precisamente entre ambas as efemérides. Basicamente, o que o Quintana fez, foi o equivalente a ir aos vestiários de um concurso Miss Mundo, encontrar 110 modelos bêbedas e/ou drogadas, e só conseguir sair de lá de braço dado com um travesti anão e cego de um olho. Tough luck.
Na verdade, o próprio Victor era a versão futeboleira de um travesti anão e cego de um olho. No mínimo, era cego de ambos os pés e liliputiano em talento, mas a parte do travesti ainda está por ser provada, apesar daquele sexy sinal carnudo ligeiramente acima do lábio superior. Como uma ex-modelo: Cindy Crawford, nem mais.

Da passerelle ao relvado, relativamente às façanhas do jogador cuja alcunha ("O Animal") o descrevia na perfeição, não há muito a dizer. Caberiam na parte de trás de uma carteirinha de fósforos, juntamente com o total de golos que o Pavlin apontou com a camisola azul-e-branca e com os números de telemóvel das miúdas que o Esquerdinha sacava no Tomate e no Via Rápida às quintas-feiras à noite.

Mas lá que o gajo puxava dumas melodias suculentas com a sua big trombone band, lá isso puxava.

quarta-feira, maio 05, 2010

Beto, Beto, Beto

O pessoal que não é de Lisboa diz que o pessoal de Lisboa é beto.
O pessoal de Lisboa corrige e diz que só o pessoal da linha de Cascais é que é beto.
O pessoal de Cascais, por seu turno, não tem outra opção senão sentir-se confortável com o seu modus vivendi ou então desabafar as maiores alarvidades ao volante do seu automóvel de elevada cilindrada enquanto está encalhado em mais engarrafamento na A5.

O nosso ponto: Betos há muitos. Com idiossincrasias muito acentuadas, como exemplificaremos.
Este Beto é do mais pungente que pode haver. Afinal, jogou num clube de betos. Foi o capitão deles, o mais beto dos betos. Teve cabelo de beto. Tem cara de beto, e logo daqueles que dá na ganza. Aposto que já usou sapatos de vela, pólos Burberry e camisas Sacoor Brothers, daquelas azuis com o rato nas costas e colarinhos brancos. Deve tratar os sobrinhos por você. Quase de certeza que organizou um jantar de beneficência ao Krpan porque pensava que ele seria um sem-abrigo. Joga, ou vai jogando, no clube que está ali entre as vivendas do Restelo e o concelho de Oeiras – portanto, clube geograficamente mais próximo do burgo central da betalhada só mesmo o Estoril (com jeitinho, ainda lá vai parar). Casou com uma mulher tão saliente quanto impregnada de silicone.
E porquê? Porque jogava bem à bola? Talvez. Por ser beto? Quiçá. Por ser o Beto? Ora aí está: a ambição de qualquer mulher com visão de futuro é contrair matrimónio com um futuro Real Madrid. Infelizmente, há especulações que nunca se concretizam materialmente. E então lá se vai o matrimónio e lá vêm as festas em catadupa.
O pesadelo do beto é ser forçado a andar de transporte público, juntamente com a gente das obras; o pesadelo deste Beto, porém, foi um camião chamado Custódio e um polícia chamado Paulo Bento. E aí a sua betice começou a ser posta em causa. Para nunca mais recuperar.
Num plano intermédio, temos este Beto. Que também começou no mesmo clube associado à betice. E não é só por causa disso que o seu nome artístico não é Pimparel. É que Pimparel ultrapassa o limite do razoável, reconheçamos. É um nome que faz o Pittbull parecer ter um nome de pessoa inteligente.
Este Beto, em rigor, não era muito beto. Era um gajo vaidoso, quanto muito, mas nunca deve ter tido um free-pass para entrar Kapital. Depois enrijeceu a barba junto dos pescadores de Leixões. Tanto voou, tanto espalhafato deu, que foi parar ao clube dos que se dizem anti-betos por excelência – aqueles que dizem que comem três sopas de cavalo cansado ao pequeno-almoço, mais uma frutinha e um telefonema a um agente desportivo na penumbra para ganhar jogos que não interessam para nada.
Lógico era que mudasse de nome. Se "beto" está demasiado colado a Lisboa, "bimbo" está colado ao Porto. Ora aí está, vamos chamar-te Bimbo e fazer-te um novo baptizado para este teu renascimento competitivo. Porque Pimparel, mesmo que fosse válido por estar no BI, estava completamente fora de hipótese. Mas por causa de direitos de marca e pressão da Panrico, Bimbo também foi uma hipótese que não saiu do papel. Envolvido nestas improfícuas discussões filosóficas, Beto deu um excelente aquecedor de banco, sendo inclusivamente seleccionado por causa desse mérito indiscutível das suas nádegas. E mesmo em certas ocasiões, quando se previa que saltasse do banco, deu-se primazia às luvas do Espírito Santo, enregeladas e extremamente sebosas, até na tepidez algarvia.
No fundo desta dinastia de betos, temos o não-beto. Um Beto acidental. Quer dizer, olhamos para a figura deste médio e para os clubes onde passou e dizemos logo que quem lhe deu a alcunha não estava a ver bem o filme. Até porque possuía Galdino no nome. Isto é a antítese do beto, o que o yin está para o yang.
Os verdadeiros betos nunca lhe perdoaram esta usurpação do nome. Se este Beto por acaso entrasse com um chapéu de viking numa praça de touros, o local para onde confluem imensas manadas de betos aos urros de “eh!, touro!”, todos iriam repugnar-se de tal forma (“Meu Deus, que horror! Aquilo tem mesmo ar de pobre!”) que ainda iriam pensar que estava ali um touro bípede.
Um bom livre no Paços, um bom golo no Beira-Mar e pronto, uma inesperada passagem para o clube com maior percentagem de adeptos desdentados de Lisboa. Sim, Lisboa é paradoxal: mesmo em frente a um dos grandes centros de opulência encontra-se o grande santuário da xungaria. E apesar do seu peculiar aspecto, chamava-se Beto e um beto no meio dos taxistas e dos garrafões não podia acabar bem.
As contradições não cessavam. Um futebol bruto digno de Fernando Aguiar mas com uma suave oxigenação capilar digna de Ruth Marlene. Um portentoso engano contra o Manchester United e sucessivas confirmações de desastre contra as equipas do campeonato português. Os adeptos estavam confusos.
Solução: apagá-lo rapidamente da nossa memória, lavar o nosso cérebro para acreditar que ele nunca aqui esteve. Este Beto, hoje em dia, é já um X-File classificado e nem o Mulder parece muito convicto da sua existência.
Agora está na Grécia. A Grécia em crise profunda, onde apenas o engenheiro do penta prospera. Esperamos que se esteja a dar bem. Porque ele, lá no fundo, merece ser feliz como os verdadeiros betos que têm as fortunas da família a sustentá-los.

O pessoal depois vinga-se nos comentários. “Eh pá, ó Rodrigues, eu até gosto da vossa SAD, mas de vez em quando vocês são um bocado parvos”. “Eh pá, ó Rodrigues, e para quando um post sobre o Paulo Vida? “Eh pá, ó Rodrigues, isso é só má fé, não tens tomates para dizer o que escreves à frente dos gajos”. Por falar em tomates:

quarta-feira, abril 07, 2010

Bully Machado


"I'm standing here; you make the move. You make the move. It's your move... " (Travis Bickle)


Falam muito de bullying hoje em dia. Como se o bullying tivesse nascido ontem. Nada mais falso. O bullying já vem de longe. E o futebol português é disso testemunha. Gajos duros, inflexíveis, nascidos e criados à chapada e pontapé, não conhecendo outra lei que não o kick-and-kick-and-then-maybe-rush. Bigodes rebeldes e cabeleiras indomáveis em equipamentos rasgados e sem marca, manchados com suor e sangue. Crianças desdentadas que foram futebolisticamente educadas em baldios com dois bidões a arder a servir de baliza e que faziam uso e abuso de uma fisga entalada nos calções. Jogadores ríspidos com um férreo código deontológico de porrada. A beleza de uma cabeçada falhada na bola e acertada no cocoruto do oponente. A fluidez de palavrões a sair por entre o cuspo a toda a hora. O prazer de partir caneleiras só com o hálito. O fascínio pelo carrinho destemperado feito de olhos fechados. Coisas bonitas que raramente vêm nos jornais.


Temos apresentado ao longo dos tempos múltiplos exemplos destes jogadores box-to-hospital. Ainda faltava homenagear essa formiguinha batalhadora dos relvados, esse animal de campo cuja energia, por vezes demasiado faiscante, jamais parecia findar. Quim Machado era o seu nome. Haverá bullies de igual ou superior reputação, é discutível - Binya, por exemplo, jogava num campeonato à parte neste capítulo e Paulinho Santos atingiu um patamar lendário, construindo uma reputação mais resistente ao tempo que a biodegradação do plástico. Mas Quim Machado, o generoso Quim Machado, ainda não tinha merecido as nossas honras. Talvez por medo de retaliação. Mas hoje enchemos o peito e denunciamo-lo sem receio de represálias.


Quim era um Machado em forma de jogador da bola. Cortava tudo a eito. Era um híbrido: 50% lenhador, 50% futebolista e 10% mau aluno a matemática. Curiosamente, homónimo de outro Quim, o Berto, que não teve alternativa senão ficar com o Berto, após uma discussão acesa com este Quim, o Machado – mentira, levou logo um sopapo mal se pôs em bicos de pé e nem sequer chegou a haver discussão. Quim Berto referiu-nos em off “Eu sentia medo quando ia para os treinos… (pausa) Tremia quando chegava a casa, o estômago andava às voltas, tinha suores frios só de pensar em encontrar o Quim Machado à minha espera no balneário (bebe água)… Ele, uma vez, entalou-me a cabeça numa janela da Torre de Belém durante uma viagem, supostamente de descompressão, ao Portugal dos Pequeninos e fui gozado por uma turma da 4ª classe uma tarde inteira… Um pesadelo…Bater livres era o único escape para mim… Foram tempos difíceis… Não quero mais falar, ele pode estar a ouvir. Especialmente se estivermos em off. Estamos em off? Oh, c’um caraças!, estou f…(desligou)”


Com as melenas ao vento e de dentes cerrados, Quim Machado estava longe de ser um quequinho esquisito com manias de “não-me-toques”. Em praticamente qualquer posição do campo era capaz de intimidar. Os seus treinadores apreciavam-no. Os seus adversários ora zombavam, ora tremiam. Mas Quim Machado deixou uma escola, qual Sócrates (que não José), na qual qualquer rude Flávio Meireles aprendeu a cabular. Luís Freitas Lobo, o special-one da poesia futebolística, caracterizou Quim Machado como “um jogador mais preocupado nas transições defensivas, com um forte pendor físico, inicialmente um nº6 à moda antiga, um polivalente com espírito de sacrifício, que também podia jogar a nº8 e que desenvolveu uma carreira profícua como lateral-direito. Voluntarioso mas de reduzida capacidade técnica, era pouco propenso ao desequilíbrio. Extremamente útil em equipas medianas, era forte a cortar linhas de passe e não só. Não enchia o olho, não era jogador que deslumbrasse, não sabia improvisar com a bola nos pés”. E, dito isto, levou com uma bolada nos dentes do próprio Quim Machado, que poucos consideraram involuntária.


Nascido na terra dos jesuítas, cedo se percebeu que Quim Machado estaria destinado para pregar a sua palavra por muitas paragens e em muitos adversários. Normalmente, ficava só duas temporadas no mesmo sítio – a primeira para apalpar terreno e a segunda para vandalizar de tal forma que o seu adeus se tornava inevitável. Começou em casa, em Santo Tirso, que se tornou rapidamente golpeada pela sua lâmina afiada. E então deu início ao périplo, saltando para o Sp. Braga. Na terra dos arcebispos cometeu heresias da pior espécie. Fez uma curta viagem até Guimarães. Escandalizou mentes sensíveis e deixou o pouco impressionável Dane danado da vida. O Minho era pequeno demais para as suas diatribes e, volvidos dois anos, arribou à Amadora. Sentiu-se peixe na água nos subúrbios, fez miséria nos comboios e nos caixotes a que chamam “prédios de habitação”, aterrorizou uma cidade já de si pouco pacata. Birame ficou boquiaberto, Mazo fez das tripas coração para sobreviver e Chainho ganhou um amigo. Bateu com o que restava da porta e rumou até Chaves, espalhando a sua religião a indivíduos do calibre de Parfait N’Dong, Toninho Cruz e, por que não dizê-lo?, todo o resto deste galáctico plantel. Em notória curva descendente, fez ainda breves incursões por Varzim, Campomaiorense, Maia e Desp. Aves e chegou mesmo a internacionalizar o seu jeito pelo grandíssimo Dudelange, onde ficou conhecido pelo “terrible portugais”, e não apenas pela sua forma arcaica de ir à linha de fundo cruzar bolas, ou lá o que era aquilo. Hoje treina, com relativo sucesso, o “seu” Tirsense.
No currículo de Machado apenas uma grande mancha: não, não era a internacionalização que não fugiu a Vado, que isso era pedir demais; foi a falta de um bigode viril, condizente com o seu carisma, e, porque não dizê-lo, com o próprio nome Quim. Mas agora cá está ele, Quim: cá está um excelso bigode só para ti. Já não tens motivos para nos fazeres mal.

quarta-feira, março 31, 2010

Os Tanques também Amam

O que têm em comum Fernando Aguiar e um aleatório jogador de futebol, para além de ambos respirarem e serem seres orgânicos?

Provavelmente nada, tendo em conta que o jogador de futebol joga de facto à bola.

Fernando, por outro lado, foi meramente um profissional da área. Existem longínquos relatos de indivíduos que juram tê-lo visto em contacto com a redondinha, mas em todas as situações rumoradas, esse mesmo contacto terá acabado em tragédia:

Foi horrível. Instalou-se o pânico na bancada, as pessoas começaram a correr em direcções opostas, cobrindo os olhos com camisolas e os ouvidos com as mãos. E as crianças, meu Deus! Alguém PENSOU nas crianças?!?”

Jorge “Gazua da Póvoa” Gamboa, companheiro de Aguiar no Beira-Mar de 2000-01, ainda não superou os traumas enfrentados no dealbar de século:

“Nunca mais fui o mesmo. Vi um rapaz dos seus 17 anos a arrancar ambos os olhos com um saca-rolhas. Eu próprio perdi o amor pelo futebol, depois de vislumbrar o Fernando a tentar um passe atrasado sobre a meia-lua, num Beira-Mar – Chaves de 2001. Foi hediondo. Ainda hoje tenho dificuldades em ver trincos com a bola nos pés.”

Fernando, por outro lado, mantém-se à ilharga da polémica. Impõe o físico no duelo 1x1 e sorri perante médios criativos que sejam estúpidos o suficiente para acariciar a redondinha nas suas redondezas. Ser agressivo é crime? Será que o Pensador de Rodin foi criticado por ser demasiado granítico? Fernando é só mais um caso da arte imitando a vida, uma estátua intransponível com responsabilidades de tampão ofensivo. “Estanca a sangria, Nando!”, gritavam-lhe do banco. Ele nunca quis ser odiado. Fernando procurava amor, aceitação. Ele só queria ser amado – e dar porrada.

Serão duas coisas assim tão incompatíveis? O canadiano queixa-se entredentes da incompreensão e ignorância que grassam no futebol luso – a crítica chamusca-lhe o ego, os maliciosos piropos da bancada causam-lhe psoríase, mas o tanque esmaga tudo pelo caminho. Impiedoso, omnipotente, ciclópico.

O colosso da queixada rectangular arrepiou caminho no hercúleo Toronto Blizzard, atravessou o Atlântico a nado (e só com um braço – estava a ler os Lusíadas com o outro) até chegar à Madeira, nadou mais um bocado até à Maia, e foi aniquilando o desporto-rei, relvados vários e canelas aleatórias até atingir o objectivo principal da carreira: destruir um prédio de cinco andares à cabeçada.

E depois, pronto, lá chegou ao Benfica.

A sua contratação causou alguma surpresa, dado que o clube da Luz – apesar de tudo – estava mais habituado a adquirir jogadores de futebol.

Aliás, especula-se que a sua aventura no ex-clube de Alejandro Escalona poderá ter tido a ver com a presença do iraniano Samir Shaker na equipa técnica do mesmo. Os ventos do futebol luso sussurram ainda hoje que o soturno Shaker seria um agente enviado pelo governo de Teerão para aquilatar a disponibilidade de Fernando Aguiar se deslocar ao Médio Oriente para abraçar as funções de arma de destruição maciça na Guerra Santa contra os Infiéis. Samir supostamente já teria levado uma nega de Musa Shannon e Jokanovic no CS Marítimo do ano transacto. Com o cepticismo de Fernando e na sequência de mais uma recusa semi-lusitana à Jihad, Samir Shaker deixaria mesmo o futebol português no final da época, desaparecendo como o vento (ou como Victor Quintana) para parte incerta.

Na sequência da recusa à Jihad - e consequente permanência em Lisboa, Fernando sentia-se lisonjeado por poder partilhar a meia-lua com Andrade:

“Tenho muito a aprender com o Andy. A forma como ele despedaça ossos é lendária. E admiro a subtileza com que ele rasga tendões. Tudo o que envolve o seu jogo é tão etereamente belo, que me apetece dedicar uma Ode às suas proezas.”

Esta épica publicação pela pena de Fernando Aguiar acabou por nunca chegar às livrarias, mas corre a lenda no balneário do Benfica que vários jogadores derramaram comovidas lágrimas ao ler as delicadas estrofes do trinco.

Emanuele Pesaresi compara mesmo Aguiar a um Homem do Renascimento Italiano: “Ele é brilhantti. Suas parolas são tão comoventes e toccantis, que me fizzeram querer abrazzar homens.” Porém, o italiano afiança que as lágrimas foram resultado de outras situações: “Não, não…não houve lágrimas. Quer dizzere, houve, peró foi perché ele nos batia muitas vezes. E doía, doía molto. Porca miseria."

A História de Fernando no Benfica foi bonita. Efémera, como o grosso dos mais tocantes contos de amor, mas sedosa e envolvente como um fio de cabelo de Miguel Veloso. Entre 2002 e 2004, o Estádio da Luz viveu uma frutuosa relação com o trinco, pois não só usufruiu dos inúmeros talentos do jogador mais virtuoso de sempre a sair do Canadá (após Alex Bunbury, obviamente), como também poupou uns cobres no que respeita à demolição do antigo Estádio – conseguindo adquirir as percentagens dos passes da orelha esquerda de Azar Karadas, da coxa direita de Éverson e de um molar de Manuel dos Santos com o dinheiro que entretanto pouparam.

Porém, o grandiloquente canadiano tinha um sonho. Como todo o filho da terra, o Curling era a sua paixão, e por muito ecléctica que a agremiação lisboeta fosse, o desporto das vassourinhas não fazia parte do seu portfólio. Assim, Fernando fez a trouxa, e qual Lucky Luke cavalgando em direcção ao horizonte pintado a tons de pôr-do-sol, deixou a solarenga capital lusa em descoberta do gélido paraíso, de seu nome Landskrona, burgo sueco de fria reputação.

Como bastião maior do Landskrona Boll Och Idrottsällskap, Aguiar conseguiu finalmente preencher mais um vazio da sua gigante alma – manejar uma vassourinha em cima de um parquet de gelo (e destruir um glaciar à cabeçada, mas isso fica para outras núpcias).

Finalmente realizado, Aguiar perdera a raiva, combustível futebolístico de outrora, e era agora um casulo de Paz, um ursinho de pelúcia com fresco odor a lavanda. E a sua performance ressentia-se. No duro campeonato sueco, palco das estrelas e Céu das mais brilhantes constelações da redondinha, Fernando era apenas mais um. A bola atrapalhava, o gelo não ajudava e pela primeira vez na sua vida, o tanque canadiano não ripostava ceifando, arrastando, puxando e maltratando os oponentes. Não. O veterano de tantas batalhas perdera aquilo que o tornara especial.

Assim, só havia uma solução possível - voltar ao local onde fora feliz: onde Fernando Aguiar aprendera a ser Fernando Aguiar. Portu fuckin' gal.

Deixando a meio a tela do sonho pintalgada a Curling, o nosso amigo abandona os barbáricos túneis do Landskrona Boll Och Idrottsällskap para ingressar num clube português cuja sigla é F.C.P. e que conta com Clayton, Folha e Ljubimko Drulovic no ataque. Infelizmente, o calendário segredava o Ano da Graça de 2004 – e o tal F.C.P. era o Futebol Clube de Penafiel, cujo decrépito trio ofensivo cruzava o cautchú em decomposição para a cabeça de Rolf Landerlhardly a Mário Jardel, i say.

Enfim. É o que se arranja. De qualquer forma, não é qualquer um que tem a Honra de poder contar aos netos que formou barreira ao som dos autoritários grunhidos do lendário keeper João Viva, uma espécie de Pedro Roma das divisões secundárias.

Seduzido pela alva barba do Major Valentim, Fernando ainda deu uma perninha tetra-anual no principal grémio da cidade de Gondomar, onde pôde partilhar balneário com o Fumo, coisa que certamente não lhe terá feito bem aos quatro pulmões. Terminou a carreira flirtando com os quarenta, a distribuir fruta ao lado de ícones como Fabeta e Idalécio.

Decididamente, a coisa poderia ter corrido bem pior para a primeira arma de destruição maciça a sair do Canadá – mesmo que a carreira no Curling não tenha sido inteiramente frutífera.


Post Scriptum Cromatium: algumas destas imagens foram desenvergonhadamente surripiadas do bossiânico blog Vedeta ou Marreta.

domingo, novembro 22, 2009

Sorrisos da Alma

Houve um tempo em que a alma respirava confiança pelas bandas de Vidal Pinheiro.

Atente-se, por exemplo, no sorriso traquinas de Milovac. Poderoso ex-jugoslavo com umas orelhas dúmbicas a pedir meças ao provecto Angulo, Milovac escarnecia com impudicícia a ousadia dos avançados que se atravessavam no seu caminho. O sorriso travesso de Milovac dizia com todos os seus dentes “com que então pensas que vais entrar na grande área e fuzilar a nossa baliza, hã?” e acrescentava, junto ao canto do lábio, “pois é, já vais ver como elas doem, meu caro”. E ainda o avançado estava paralisado com esse verdadeiro canto de sereia que era o sorriso de Milovac, fascinado pelo seu ar de aparente ternura infantil, ao jeito de quem sorve granizados atrás de granizados nas traseiras do pavilhão da escola, e já Milovac lhe aplicava uma tesourada impiedosa capaz de fazer gastar todo o stock de sprays analgésicos do seu clube de uma só vez. Milovac era um autêntico lobo vestido de cordeiro. Djoincevic era mais um lobo vestido de lobisomem – mas isso já são outras contas.

Nikolic, por seu turno, distribuía sorrisos que tendiam para a gargalhada, tamanha era a sua confiança. Sorrisos que despertaram furor no mundo publicitário, pelos sentimentos positivos que traduziam, e que mereceram o seguinte comentário de um famoso publicitário brasileiro: “Nossa, esse cara aí vai londji, pô”. E foi – desde a sua meia-lua até à pequena área contrária. Ele era o grande artista de Paranhos, o mágico que transformava uma bola perdida na lama de Vidal Pinheiro num planeta pleno de viço rolando sobre uma carpete persa. A equipa era uma espécie de Tocá Rufar e ele era um violinista que não tocava Chopin. Já Lalic era uma imitação comprada no bazar chinês de Zagreb – e ao fim de um par de jogos acabaram-se-lhe logo as pilhas e foi rapidamente remetido para uma arrecadação, até que, um dia mais tarde, Edu Brasil redescobriu o seu jeito barato. Edu Brasil era um jogador que não enganava quanto às suas origens – mal alguém olhava para ele, dizia logo: “este gajo Edu Brasil! Quer Lalic quer Edu Brasil nunca conseguiram atingir o mesmo patamar de fotogenia do sorriso ímpar de Nikolic – consta que nem sequer possuíam uma dentição própria.

Seria tudo um mar de rosas se todos fossem assim, mas não há rosas sem espinhos. E eram os espinhos que incomodavam José Luís, sobretudo quando instados nas partes mais baixas do seu corpo. José Luís fazia beicinho amiúde. Franzia os olhos, achava que havia marosca por trás de tudo. Queixava-se que não lhe passavam a bola, que não tinha direito a colete nos treinos, que o vermelho do Salgueiros realçava a sua palidez, que o Madureira tinha um bafo insuportável, que isto, que aquilo, e então amuou. Foi contrafeito que posou para o cromo. Acentuavam-se as divisões no grupo. Crescia a tensão entre os bem-dispostos e os mal-dispostos.

A alma acabaria por ser entregue às mãos do diabo Linhares. E o Salgueiros, como nós o conhecíamos, sublimou-se pelos ares do progresso, tornando-se num clube sem face. Rui França que o diga. Esse mítico centrocampista com nome de país que emprestou um novo sentido à palavra “sarrafada” e nunca mais o devolveu. Rui França e o Salgueiros resvalaram para o anonimato, eclipsaram-se pela força dos carris metropolitanos. Perdeu-se a glória, ganharam-se acessibilidades. O sorriso passou do adepto para o utente suburbano.

quinta-feira, novembro 05, 2009

A Pantera Negra (A Outra)

Eusébio. Um nome, uma lenda. Pensamos em Eusébio e imediatamente associamos esse vulto a “tremoços”. E também a Portugal, vá lá. E vagamente à Amália e ao carismático par de lontras do Oceanário. É uma fama que perpassa gerações, nacionalidades e credos. Chegou a altura da homenagem da nossa SAD.
Aqui está Eusébio representado na flor da sua idade, pujante como nunca. Um equipamento imaculadamente negro, como negra era a vida de quem lhe tentava fazer um túnel. Uma frondosa extensão capilar, com duas pontas soltas a tombarem-lhe sobre a fronte, emprestando um elevado quilate estético a esta força da Natureza tornada jogador. O olho esquerdo um pouco mais cerrado, uma expressão de desafio, um aviso aos magos da bola que teimam em acarinhar o cautchu na intermediária: Eusébio não era apenas um mero carregador de piano; ele carregava-o, mandava-o ao chão e desfazia-lo em cacos apenas com o uso da sua mastodôntica força ortopédica. Duas sobrancelhas robustas, daquelas que definem a fronteira entre um Andrade e um Rui França. Um tufo de pêlos peitorais encarcerado pela justeza do equipamento e que teima em respirar à tona como se fosse um periscópio da masculinidade lusitana. E depois aquele subtil sorriso matreiro, qual Gioconda dos relvados enlameados com as bancadas bem próximas dos relvados e com velhas guinchadoras a arremessar pevides à careca do desamparado bandeirinha que não Bandeirinha, em jeito do anti-herói que despreza o perigo e que teima em partir as pernas dos outros quando não as consegue vergar.
Eusébio marcou mais que uma era; marcou muitas canelas por este Portugal dos brandos costumes.
Está feita a tua homenagem, Eusébio. Agora só pedimos, por favor, que não nos batas.


Este pode não ser o Eusébio que todos conhecem. Mas não deixa de ser uma lenda para nós.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Bracara Assusta

Na ressaca do Halloween, dispensamos maquilhagem. Isso é coisa para meninas, bandas dos anos 80 e para o Kenny Cooper. Aqui no Cromos da Bola, SAD, gostamos dos nossos sustos sem corantes, conservantes e aditivos vários. Assim sendo, fomos à pesca.
Como do Oceano não apreciamos Peixe, Lula, Crodonilson ou Estrela-que-não-Pedro-do-Mar, fomos esgravatar no bas-fond da Bracara Augusta, na expectativa que nos saísse um mexilhão de qualidade.
E há melhor mexilhão do que Borçato?
Já dizia a minha mãe, "quem não tem Cao, caça com Borçato". E o vosso escriba, obediente petiz de antanho, assim fez. E que bom susto nos oferece o aguerrido brasileiro! Até parece que estou a ver o plantel do Beira Mar tolhido de medo perante este corcunda de Notre Dame, que não era corcunda, nem de Notre Dame. Nem o Vítor Duarte escapou ao sobressalto, logo ele que era uma espécie de Dinis albino, que não Bino percursor da mosquinha.

Mas nem só de Borçato vive o espavento, e a nossa pescaria trouxe mais bivalves de qualidade.
Vejamos o Caniggia de Alhos Vedros, Pedro Miguel de seu tímido nome, meio sorriso no rosto estampado. Não enganas ninguém, Pedro. Esse encenado esgar de simpatia não cobre a loucura adjacente ao teu olhar. Está lá, Pedro, e toda a gente vê (menos o Gaspar Ramos, porque não sabemos muito bem para onde está a olhar). Esse desatino que te vai na alma é transparente. Conseguimos cheirar o sangue de mil mutiladas vítimas no teu cabelo de pontas espigadas, podemos ver a morte na tua barba negligé de 3 dias. O teu trejeito de felicidade não é senão uma fachada, uma capa para cobrir a mórbida demência que te leva a roer os ossos daquilo que resta do simpático Johnny Rodlund. A tua máscara caiu, Pedro. Nós temos medo. E tu?

Olha no fundo do balde! É um Vado! Lá está ele todo espantado. És feio, mas não metes medo, malvado. Ficas aí ensopado, no fundo do balde pregado, desamparado. Coitado? És pequeno e limitado, mas não temos pena de ti aí no fundo do balde sulcado. Vês o caso mal parado? Não fosses Vado, fosses antes Borçato que é bem mais amado.

Eh lá, sobrou um Chico. E acho que é um Silva. É verdade, grande pescaria.
Um Borçato para o palato, um Vado para o enfado, e um Pedro Miguel para fazer pastel. E como se já não bastasse, calha-nos um Chico no final da festa. E é um Silva!

Não dá para grande abalo de terror repentino, mas é sempre bom para afugentar certas pessoas.
Como dá ares de arrumador, pode ser que o Floris Schaap não queira arrotar 50 cêntimos para deixar a Famel à porta do balneário e venha de autocarro. Quanto mais tarde o antecessor de Nordin Wooter chegar ao treino, mais hipóteses tem o Jorge Ferreira de ser titular. E todos queremos ver o Jójó no tapete verde, não é?


Post Scriptum Cromatium: como podem ver no cantinho aí à direita, o Cromos da Bola SAD é oficialmente uma prostituta da blogosfera: já estamos no Facebook. E queremos ser vossos amigos. (Bod)Unha e carne, como Dani e Domínguez.

quarta-feira, julho 29, 2009

Cinco Estrelas da Amadora

A Amadora já não tem futebol de primeira. É tempo então para recordar algumas figuras cintilantes dos tricolores suburbanos, quando estes saíram de casa às 7:00 para apanhar o comboio superlotado da Primeira Divisão (eram 20 equipas a lutar pelo seu espaço em 1988, todas de braço no ar e odor a sovaco sem desodorizante na cara umas das outras).

Iniciemos esta missão espacial por Cartaxo, que calha tão bem na Amadora como Alhandra em Leiria ou Mangualde em Paços de Ferreira.
Muitos não se recordarão de Cartaxo. Quanto muito, lembrar-se-ão apenas dos vinhos do Cartaxo. O que é tremendamente injusto. Cartaxo foi Sideshow Bob ainda antes do próprio Sideshow Bob existir. E, extremamente importante, adicionou à guedelha insubmissa um solene bigode, emprestando uma lusitanidade ímpar à personagem.
Cartaxo surge aqui com uma espécie de halo messiânico a envolvê-lo. Mas, futebolisticamente, Cartaxo com o seu lookD.Sebastião goes to Woodstock” não salvou a Amadora do nevoeiro exibicional enquanto por lá cirandou. E, em abono da verdade, o que ele fez antes e depois da sua estadia na Amadora também não é recordado por aí além, nem mesmo pelos indefectíveis adeptos estrelistas entretidos a ouvir os relatos do Sporting e do Benfica e que não arredavam o traseiro da almofadinha na bancada. Cartaxo, decididamente, não teve muita parra nem muita uva. Mas, enfim, tinha estilo. Algum, pelo menos. Isto é, se utilizarmos um critério muito largo para o conceito de “estilo”.


Para “estilo” a sério temos os dois Marlons. Designemos o primeiro Marlon por “Marlon A”. “A” de Alves, mas também porque jogava à defesa e aparecia antes do outro Marlon nas fichas de jogo.
Marlon A era um xerife do sertão. Era durinho e tinha mão para sozinho dominar manadas com centenas de milhar de cabeças de gado, dispensando o uso de cães nas vastas paisagens de Mato Grosso. Puxava para trás o cabelo besuntado com um resíduo petrolífero a que chamava parafina com o auxílio de um pente que guardava religiosamente na retaguarda dos seus calções. O pente era um derivado de canivete suíço e também possuía uma lâmina afiada, um saca-rolhas, um cotonete e um palito de plástico – que isto de ser vaqueiro exigia preparação para todas as situações. Gostava de fazer churrascos nas selvagens ruas da Buraca e era costumeiro ouvi-lo uivar nas tórridas noites de luar da Brandoa.
Mas o que devemos reter é o facto de ter possuído um aprumado bigode. Tudo o resto perde o seu sentido perante este símbolo de virilidade.

Marlon B, por seu turno, tornou-se numa verdadeira “pièce de résistance” estrelista, Birame aparte. O homem a quem um comentador do norte uma vez se referiu como “Marlão Brandon” chamava-se, na realidade, Marlon Brandão. Consta que o pai atribuiu-lhe o nome como tributo ao malogrado actor Marlon Brando. Talvez o pai se tenha arrependido quando viu “O Último Tango em Paris”. E, vai daí, talvez não – talvez apenas tenha mudado a sua perspectiva sobre as possíveis finalidades da margarina.
Marlon B chegou e varreu o lodo que atolava o futebol estrelista com as suas longas melenas. Bradou “apocalypse, now!” às defesas contrárias e a bola era o seu grande desejo. Tornou-se o padrinho de todo o balneário, rendido que este estava às suas propostas irrecusáveis de bom futebol. Depois de uns tempos agradáveis, Marlon B fez-se à estrada e foi enquadrar-se no xadrez do Bessa durante uns bons anos, onde continuou a desempenhar os principais papéis. Ganhou um Óscar pela sua fantástica interpretação no spot publicitário do shampoo Organics, mas, rebelde, nunca chegou a receber o prémio, preferindo beberricar o seu cafezinho nas imediações da Boavista.

Rosário era pequenito e estava sempre pronto para a luta. Inspirou multidões com a sua “stamina”. Por exemplo, Didier Deschamps, que formatou a sua cara e o seu tamanho à imagem de Rosário (as semelhanças físicas são evidentes). Deschamps vira um Estrela da AmadoraPortimonense quando pensou em comprar um T2 na Reboleira e ficou abismado com a capacidade que Rosário demonstrou durante o aquecimento. Então, abandonou os planos de habitar na Reboleira (optou pela Venda Nova), voltou para França e adquiriu um “Kit Rosário”, que incluía uma máscara facial, um adaptador de tamanho, duas chuteiras e um corta-unhas. A partir daí, Deschamps deixou de ser um médio que corria muito mas não marcava golos para ser um médio que corria muito mas não marcava golos e que tinha aspecto de ser adjunto do Fernando Santos.
Aliás, durante a sua estadia na Amadora, Rosário já pouco se interessava pelo jogo dentro do campo. Rosário foi correndo e exercitando-se com afinco, mas apenas como preparação para o grande desafio da sua vida: acompanhar eternamente o engenheiro Fernando Santos. E ambos vão vivendo felizes para sempre, Santos com os seus esquemas tácticos e apertados nós de gravata e Rosário com os seus pinos e objectos de marcação variados.

Viagem que é viagem pelas estrelas não podia acabar sem uma referência ao mítico Bobó. Já sobejamente referenciado, este mito moderno desperta sorrisos entre os adeptos e funestas recordações de nódoas negras aos antigos adversários. É, provavelmente, o guineense mais famoso de sempre. É deveras curioso como os homens costumam suplicar recorrentemente pelo Bobó, apesar da sua carreira já ter terminado há bastante tempo, e as mulheres, três-meia-volta, estão com o Bobó na boca, mesmo aquelas que nada percebem de futebol. É um autêntico fenómeno de popularidade, este outrora vigoroso médio defensivo. Hoje em dia, porém, parece que nem o melhor Bobó de sempre seria capaz de reanimar o velho Estrela da Amadora.

domingo, janeiro 11, 2009

Doppelgänger MXVIII















Yes, he can (get a free pass to the White House).
No, he can't (pass the damn ball).

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Wort zieht Wort an



















Acima Michael Kimmel, em 1994, cumprindo a promessa feita a Nélson Bertolazzi num treino da UDL.

Herr Kimmel afirmava que Mário Artur teria uma amplitude de visão próxima dos 360º, visto que os olhos do internacional moçambicano estariam mais afastados um do outro do que Pinto da Costa e LF Vieira.
Bertolazzi refutou essa teoria e decidiu testá-la, apostando com o panzer teutónico que caso o trinco perdesse, teria que usar um fato côr-de-vómito num programa do António Sala, desde que não fosse o "Jogo da Mala".
Por outro lado, se fosse o brasileiro a perder a aposta, a punição passaria por algo mais leve do que interagir com o António Sala. Começa com a letra "S", termina com a letra "A", tem o nome deste jogador dos Lakers de permeio, seguido da letra "I". Alguém estava de bom humor, portanto.

Ora bem, urgia testar essa mesma teoria. Como? Usando uma táctica que iria estar muito em voga 14 anos volvidos: atirando uma chuteira à cabeça do Mário. Direitinha à nuca. Se o brasileiro se desviasse, os dois compinchas saberiam que este conseguiria ver em todas as direcções (o que também explicaria a sua assombrosa e cacciólica capacidade de passe).

Resultado?

Ainda a cabeça do Mário Artur estava a 2cm do chão e Micha Kimmel já estava a caminho da Maconde para comprar um fatinho cor-de-vómito.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Dia Em Que A Bola Sorriu

“Aiiiiii, que já fiz porcaria!”, brada Soeiro em pleno Estádio Comendador Manuel Oliveira Violas. A bola, matreira, lá se ia a escapar. Mais esta vez.
Era habitual a bola fugir de Soeiro. Cansada de ser vilipendiada e tratada com rudes biqueiradas para a fria bancada de betão, a redondinha foi célere a assinar a papelada de divórcio com Soeiro, ditando assim o fim abrupto de uma relação torta à nascença. Soeiro, irado como um amante traído, canalizou então toda a sua raiva inata para os adversários que galanteavam a pelota com argumentos que o ciumento Soeiro não possuía.

Soeiro talvez pudesse ter sido um bom pedreiro. Os seus pés pareciam dois brutais blocos de granito e o seu espírito determinado era benquisto na indústria da construção civil. Os baldes de cimento olhavam para Soeiro com um misto de fascínio e desejo, mas Soeiro tinha outros planos, como bom vimaranense que era: distribuir a palavra de Afonso Henriques pelos campos de Portugal. À traulitada, pois claro.
Fez-se à estrada. Primeiro, num périplo pelo norte, com uma época em Lixa (que foi lixada) e outra em Fafe (na senda S. Rui Costa), ainda pela candura dos vinte aninhos, ou seja, tendo os ossos por enrijecer e uma técnica assassina por afinar.
E foi a sua preocupação com as afinações que o levou até Elvas, naquela que seria a última época dos alentejanos no top futebolístico nacional. O mentor seria o famosíssimo Paco Bandeira. Malgrado a descida dos elvenses e os dissabores causados por caramelos impróprios para consumo adquiridos à socapa em Badajoz, foi um ano em cheio para Soeiro: os acordes acústicos de Paco Bandeira acicataram a fúria interior de Soeiro, levando-lhe os índices de cólera aos píncaros. Resultado: Soeiro ganhou o reingresso no Vitória de Guimarães dotado de uma irascibilidade notável. O efeito colateral foi desatar às cotoveladas assim que lhe trauteavam a aparentemente calma “Ternura dos Quarenta”.
Quatro épocas em Guimarães, evangelizando os instintos bárbaros do Fundador nas canelas adversárias, serviram de inspiração para alguns cândidos momentos de hooliganismo primário com que os Insane Guys brindaram o país. Foi então que a ilha de Jardim chamou por Soeiro, apostada que estava em traduzir a linguagem bélica de Alberto João em entradas de pés juntos no Caldeirão. Soeiro caiu que nem uma luva no esquema táctico do Marítimo, assim como os oponentes caíam que nem tordos desamparados no relvado perante o ímpeto destravado de Soeiro.
A caminho dos trinta anos, Soeiro cometeu o erro de regressar aonde fora feliz – Guimarães. Por motivos desconhecidos, não chegou a aquecer os pitons de alumínio nas coxas adversárias, partindo daí para Espinho (como o cromo documenta). Em Espinho, na última temporada dos tigres da Costa Verde no convívio dos grandes, foi tigre de papel. A estrela começava a empalidecer.

Restava-lhe um último grande suspiro, a última hipótese de ajustar contas com essa apaixonante figura geométrica desprovida de arestas: a bola. O local: Felgueiras, terra de forte tradição caribenha, dos despudorados Ferraris amarelos à porta da fábrica de calçado e, acima de tudo, de recontros sangrentos ao pôr-do-sol, à boa moda do faroeste.
Soeiro estava nas últimas, devastado como um guerreiro solitário que sabe da aproximação da última batalha. A bola, altiva e esquiva, mulher segura de si, lá estava de olhos postos nos jeitosos médios ofensivos que Soeiro tanto abominava. Soeiro tentou a derradeira reconciliação. Abordou-lhe junto ao círculo central, quando ela passeava colada ao pé de um desses fantasistas que abundam por aí.
- Volta para mim, bolinha. Tu sabes bem que te amo. Sempre te amei… - suplicou Soeiro.
A bola nem olhou, extremando a sua indiferença. Soeiro tentou outra vez.
- Eu posso ter sido indelicado… eu posso ter partido uma ou outra caneleira desnecessariamente… eu posso ter-te tratado como tu não merecias… mas só Deus sabe como tu foste o meu grande amor… perdoa-me, bolinha. Perdoas-me?
Nessa altura, o esférico pareceu condescender; inflectiu na direcção de Soeiro, Soeiro ajeitou os lábios e o beijo entre os dois estava iminente. No entanto, surpresa das surpresas, a bola, delicada e fugidia, rolou por debaixo das pernas de Soeiro. O desespero assaltou Soeiro.
- NÃÃÃO!!!! Toda a vida a fugir de mim!!! Porquê?!?!?
Incapaz de conter a sua desilusão, Soeiro tombou instintivamente para o chão, de pernas esticadas para a frente, com a tensão dos nervos a percorrer-lhe o corpo. As suas chuteiras acertaram nas pernas do talentoso médio que o ludibriara e este deu uma pirueta no ar para o chão. O apito soou, houve aglomeração de jogadores à volta de Soeiro, que mal podia acreditar. Prontamente, o cartão saiu do bolso do juiz e sorriu-lhe outra vez, como velho conhecido que era. O destino pregara uma rasteira a Soeiro, logo a Soeiro, que tantas rasteiras pregara por aí.
Há quem diga que a bola sorriu jocosamente nesse momento. Há quem diga que a bola já não sorri desde que a família Vidigal começou a dar cartas no futebol luso.

sábado, junho 23, 2007

Milli Vanilli do Sado


No dealbar da década de 90, o Mundo assistia perplexo à queda de um mito. Petizes choravam rios de lágrimas que desguavam sem apelo nem agravo bem fundo nas incautas almas de todos nós, que apenas imploravam um fim para este desgraçado sofrimento que nos fazia definhar e tornava o povo em meros cadáveres andantes. Sim, os Milli Vanilli eram uma fraude. Desgraça. Tragédia.

Será que aquela sedutora mistura entre a jovial irreverência do reggae, a suave candura de uma balada pop e a hipnotizadora batida ritmada da dance music teria sido apenas um bonito sonho? Basbaques mal intencionados vociferavam alarvemente que as angélicas e pungentes vozes - a fazer lembrar um guardião do Sporting Clube de Portugal - do harmonioso duo Rob e Fab não seriam realmente as deles. Ignomínia! Que o playback seria a poção mágica dos seus sublimes concertos e que as formosas vozes que se ouviam no seu album de sucesso teriam sido cantadas por outros pobres diabos. Vitupério!

Pois bem, no infame dia 12 de Novembro de 1990 - jornada marcada a sangue escarlate no calendário de qualquer amante da vida que se preze - esta suspeita seria confirmada pelo agente do ex-duo maravilha.

Foi o dia em que todos nós perdemos a inocência. Os Milli Vanilli cairam em desgraça e com eles arrastaram, numa dolorosa espiral de decadência, todo o espírito e moral da civilização Ocidental.

Porém, um par de anos após a tragédia que mudou a face do Planeta Terra, os sábios responsáveis do Vitória Futebol Clube, agremiação sita na amistosa localidade de Setúbal, Land of The Yekini, decidiram devolver o sorriso ao atormentado povo terráqueo. Num encantador assomo de altruísmo, os sadinos definiram a estratégia para colocar o clube nas bocas do Mundo: reunir Rob e Fab, desta feita no gracioso relvado do Bonfim. Não eram jogadores de futebol? Não há problema. Estamos a falar de um clube que viria a albergar Nogueira uns anos mais tarde.

Os primeiros contactos efectuados revelaram-se uma enorme montanha - tipo Vujacic - impossível de escalar. Rob encontrava-se a trabalhar como assistente do controlador de qualidade de comida de gato no Tajiquistão, enquanto Fab labutava como estagiário na indústria de remoção de fezes de ratazana nos esgotos de Nay Pyi Taw, Myanmar, ex-Birmânia.

Derrotados por não lhes conseguirem oferecer melhores condições em Setúbal, os dirigentes sulistas, sempre argutos, usaram a história em seu favor. Pois se os verdadeiros Milli Vanilli não passavam duma espécie de duplos, que melhor solução para o busílis do que arranjar um par de duplos deles próprios? Assim foi.

Seguindo uma linha de pensamento muito própria do balón luso, o primeiro passo seria buscar um refugiado à Serra Leoa e pô-lo a treinar(na verdade, o gajo veio de Castelo Branco, mas assim soa melhor). Eis Sessay.
O seu compagnon de route teria obrigatoriamente que falar com o adocicado e cantante sotaque de Vera Cruz. Procedimento? Uma viagenzita à Maia. Mete jogador no carro. Arranca. Veste camisola verde-e-branca ao jogador. Setúbal. Trava. Ajeita o bigode. Sai do carro. Inventa frase à pressão. Apresenta "esta grande esperança do futebol brasileiro, ex-internacional das camadas jovens, chegou mesmo a relegar o Cafú para o banco". Palmada nas costas do jogador. Posa em conjunto para os flashes. Sai em triunfo. Eis Elísio.

Sucesso? Nem por isso. Os sadinos, gente conhecedora da esfericidade da bola, cedo se deram conta que o abichanado duo não era mais que uma reles imitação de Kiki, mas - horror - em duplicado.
De Setúbal para o Mundo, as notícias correram céleres (ao contrário de Sessay), e o Planeta chorou. Lágrimas de sangue, despojos vencidos de uma falsa esperança copiosamente derrotada pela lei do esférico. Pois o regresso fora implacavelmente abortado. A bola não mente.


Post Scripum Cromatium: Ao jeito de off-topic, um pensamento solto: que belo teria sido se o ex-amadorense Mazo tivesse jogado na equipa do Sado.
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